Caracterizado ao longo de sua história universal como uma dança dramática, como um auto ou como uma comédia dell'arte e, no Brasil, como uma dança dramática de escravos, uma brincadeira de negros, uma festa de mestiços, um ritual de índios, uma lembrança de brancos e um folguedo popular, o Bumba-meu-boi possui uma genealogia plural que permite as mais diversas interpretações, conforme as contextualizações históricas, sociais e políticas adotadas pelos grupos sociais em cada cultura. Uma genealogia cujas procedências foram determinadas pelas adaptações feitas em cada cultura de acordo com as práticas e universos simbólicos locais e, que permitiram num mesmo cenário, a mistura de elementos da comédia, da sátira, do drama, do teatro e da música através da brincadeira, do rito profano-religioso, da pilhéria, da malandragem e da construção de personagens caricaturais, às vezes reais, às vezes fictícios. Elementos amalgamados através do tempo e do espaço por Rituais (ensaios, batismo, apresentações e morte) permanentes e de transição, por Lendas (São Sebastião, Boizinho de São João) e Auto (lendas e suas versões) que lhe permitiram criar uma narrativa e um lugar no social, constituindo um conteúdo próprio, cujas estruturas interligaram-se num cenário que deu o sentido de permanência do Bumba-Meu-Boi no Brasil; pelos ritmos, sotaques, toadas e caracterizações; pelas manifestações estéticas dos modos de dançar, vestir e apresentar de cada grupo, pelos personagens que mudaram de contexto a contexto, e pelos rituais adotados em função da dinâmica de cada região.
No entanto, embora fazendo parte de um processo cultural abrangente, desencadeou singularidades que o tornaram único, diante de outras práticas também consideradas populares. Estas singularidades presentes nos seus ritos, mitos, autos, lendas, personagens, cantos, danças, indumentárias, adereços e instrumentos perpetuaram ao longo de três séculos de existência um discurso reivindicativo dos grupos populares.
Neste percurso, a manifestação foi sendo alternadamente delineada pelos índios, negros e mestiços como se fosse um jornal comunitário, capaz de expressar em toadas, danças e teatro o que os incomodava no contexto social, e pelo poder constituído como um brinquedo sem categorização cultural, uma dança violenta, folclórica e baderneira. Deste modo, tendo que movimentar-se entre dois pólos opostos em permanente tensão, e sob estrito controle da sociedade emergente, o folguedo conseguiu resistir e sobreviver sem dessacralizar o seu núcleo simbólico, adaptando-se porém às contingências históricas e às exigências sociais, no contexto de um processo político/ideológico mais amplo de uma luta de classes que se iniciou no Brasil entre senhores e escravos, e depois entre brancos/burgueses e negros/proletários.
O Bumba-meu-boi de Morros é parte desta experiência genealógica constituída no Maranhão pela cultura popular. É uma experiência recente, mas bastante fundamentada numa tradição secular, oriunda de uma região-mãe que deu procedência ao estilo e sotaque de orquestra e perfomatizou o que atualmente é considerado por alguns autores como o grupo branco.
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